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Uma reflexão sobre a relevância das pesquisas em Comunicação a partir do lançamento do “Ciência sem Fronteiras”

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Essa semana, li com bastante animação as notícias relacionadas ao anúncio oficial do programa “Ciência sem Fronteiras”. A iniciativa é uma parceria entre MEC e Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e visa conceder 100 mil bolsas no exterior para estudantes do nível médio ao pós-doutorado. A animação ficou um pouco contida ao saber que as bolsas irão priorizar sobretudo a área de exatas e as engenharias. Nenhuma subárea das Ciências Sociais e Humanas deve ser atendida no programa, que, segundo o ministro Aloizio Mercadante (MCT), tem como objetivo propiciar um salto tecnológico ao Brasil. Mas devo explicar melhor a minha decepção.

Mercadante ressaltou que dois terços das patentes registradas no mundo são feitas por empresas, enquanto, no Brasil, a balança se inverte, com dois terços das patentes tendo origem nas universidades públicas. (Foto ABr)

Não foi exatamente com a iniciativa em si. Concordo que o Brasil precisa realmente focar em áreas estratégicas e propiciar a melhor formação possível para os profissionais desses campos. Também concordo com a idéia defendida pelo ministro de que é preciso uma aproximação entre o setor privado e o científico. Como Mercadante mesmo argumentou, dois terços das patentes registradas no mundo são feitas por empresas, enquanto, no Brasil, a balança se inverte, com dois terços das patentes tendo origem nas universidades públicas. Além disso, a minha decepção não é bairrista. Entendo a utilidade prática e mesmo a relevância social de pesquisas da área de tecnologia e ciências biológicas. Além disso, CNPq e Capes vão continuar a fornecer suporte financeiro para nossos pequisadores em outros programas.

Acho que a sensação de desânimo está mais relacionada com o nosso campo — a Comunicação, sendo específica. Meu marido, que devo deixar claro é da Ciência da Computação, soltou a frase que começou a colocar as coisas no lugar na minha cabeça: “o problema é que vocês não sabem vender o peixe”.

A questão é que o intercâmbio de idéias entre cientistas e profissionais na Comunicação é mínimo. É o distanciamento entre iniciativa privada e ciência elevado à enésima potência.

A verdade é que quando estamos na universidade, ainda nos primeiros passos para começar a pesquisar — passos ainda mais iniciais do que os que dou atualmente –, nossos professores nos ensinam a justificar nossos projetos de pesquisa. A idéia é mostrar a relevância dos objetos de estudo, baseando-nos nos retornos intra-científicos — ganhos para a própria ciência/campo — e naqueles relacionados à comunidade num sentido mais amplo. Não sei se sou eu que não faço pesquisas exatamente relevantes ou se efetivamente há uma tendência na Comunicação de nos apoiarmos em justificativas intra-científicas. Além disso, percebo que temos um receio de “comercializarmos” nosso conhecimento. Na Comunicação, há, para mim, uma clara diferença entre profissionais do mercado e profissionais da academia, o que não é exatamente um problema. A questão é que o intercâmbio de idéias entre cientistas e profissionais na Comunicação é mínimo. É o distanciamento entre iniciativa privada e ciência elevado à enésima potência.

Ao mesmo tempo, tenho acompanhado alguns projetos, sobretudo nos EUA, que utilizam do conhecimento científico gerado na Comunicação para aplicações mercadológicas (conheça três deles aqui, aqui e aqui). Falo especificamente da minha área, da análise de enquadramentos. Não estou dizendo que não fazemos isso no Brasil. A impressão é apenas que o diálogo entre academia e mercado é muito menor e que desenvolvemos formatos de análise sofisticados nas universidades que não são nem minimamente implementados nas empresas/departamentos de comunicação. E que fique claro, a culpa não é só dos profissionais. Há também um excesso de pesquisas que não têm exatamente uma relevância prática no nosso campo. Somos “egoístas” ao extremo quando produzimos conhecimento.

E a autonomia?

Tudo isso parece estar um pouco conectado — pelo menos na minha cabeça decepcionada — com uma certa confusão na Comunicação quando o assunto é autonomia científica. Sabemos que é preciso independência e um certo nível de distanciamento de outros fazeres para a construção do saber. A universidade sempre foi o centro da produção acadêmica e da transferência de conhecimento no Brasil justamente por permitir esse tipo de independência. Mas será que não estamos entendendo autonomia como uma completa desconexão com a comunidade em geral?

Há também um excesso de pesquisas que não têm exatamente uma relevância prática no nosso campo. Somos ‘egoístas’ ao extremo quando produzimos conhecimento.”

Enfim, acho que, ao final, fiquei realmente decepcionada foi com a forma como necessariamente separamos academia e mercado na Comunicação. E talvez, por isso, não seja perceptível num nível mais ampliado a relevância de nossas pesquisas — não sabemos vender mesmo o peixe. No nosso caso, não se trata de aumentar o número de patentes ou coisas do tipo, mas de incentivar o intercâmbio de idéias entre profissionais e cientistas. Existe uma dupla má vontade tanto por parte dos pesquisadores quanto por parte dos profissionais. Sim, a cabeça e a forma de trabalhar de ambos é distinta. Mas, todo o esforço que fazemos para conferir confiabilidade aos nossos estudos, por exemplo, precisa ser transportado para o mercado. Além disso, as necessidades práticas da comunidade em geral precisam ser levadas mais em conta quando desenhamos nossas pesquisas. É preciso olhar menos para o nosso umbigo e mais para a realidade concreta, que também pode se beneficiar de estudos vindos da Comunicação. A área de Comunicação e Política então me parece um campo mais que fértil para isso.

[author] [author_image timthumb=’on’]http://www.comunicacaoepolitica.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/03/anacarol.jpg[/author_image] [author_info]Ana Carolina Vimieiro é mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e jornalista graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Passou por redações de portal, impresso, TV, rádio e assessoria, antes de se dedicar à área acadêmica. Seu interesse de pesquisa se concentra na análise de debates de temas públicos na mídia – sobretudo questões de reconhecimento e de interesse comum – e também na formulação de metodologias específicas para a análise de enquadramentos. É atleticana fanática, apaixonada por futebol, e consumidora assídua de seriados em geral. Atualmente, vive na Austrália.[/author_info] [/author]

Ana Carolina Vimieiro
Ana Carolina Vimieiro é mestre em Comunicação pela UFMG e, atualmente, doutoranda na mesma área pela Queensland University of Technology (QUT), Austrália. Foi membro do Eme (Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Pública, Fafich/UFMG) durante o mestrado e hoje integra o ARC Centre of Excellence for Creative Industries and Innovation (CCI) e o Social Media Research Group, ambos com sede na QUT. Seus interesses de pesquisa incluem: inovações metodológicas, sociologia do futebol, política informal, cultura participativa e mídias sociais.

6 COMENTÁRIOS

  1. O problema é justamente esse: olhamos tanto pro nosso próprio umbigo de pesquisador, que acabamos sendo totalmente ambíguos quando reclamamos ‘autonomia’. Isso porque, no fim das contas, o que queremos mesmo, neste caso, é autonomia pro egoísmo. Ou seja, pra fazer ciência pra nós mesmos, ou quando não, apenas pros olhos daqueles que se depararem em algum momento com o nosso sagrado Currículo Lattes. Enfim, saindo um pouco da esfera do ego, mas ainda permanecendo nela, o que falta na relação entre a academia e o ‘mundo prático’ é justamente uma mudança de aproximação daquele para com este, deixando de lado a ‘paranoia’ e incorporando cada vez mais a ‘metanoia’ – como diria Maffesoli – para produzir um conhecimento relevante e devidamente aplicável – e não simplesmente replicável.

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