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9 notas sobre a votação do impeachment na Câmara

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No último domingo, 17 de abril, a transmissão da votação da admissibilidade do impeachment da presidenta Dilma Rousseff pela TV Câmara foi uma oportunidade para reflexões sobre a nossa democracia e suas instituições e o modo como temos feito política. Aconteceu de termos uma pequena amostra das razões e motivações dos representantes.

O jornalismo nacional e internacional publicou muito sobre a fatídica sessão que acabou por decidir pela admissibilidade do processo contra Dilma, mas também muitos especialistas respeitáveis da Ciência Política e Comunicação manifestaram opinião através do Facebook e Twitter. Em comum, o embasbacamento diante da baixa qualidade dos nossos representantes da casa baixa.

No dia seguinte, para organizar a memória após presenciar momento tão importante, bem como para sintetizar o que li a respeito, escrevi algumas notas, que atualizei hoje:

1. Só em um país extremamente patrimonialista e patriarcalista, onde a autoridade pública é entendida como propriedade familiar, deputados não têm vergonha de creditar a própria carreira política aos pais e avôs (nada sobre a contribuição de mães ou avós para iniciação política, registre-se); ou muito menos vergonha de querer introduzir seus rebentos na política, por simples e casuisticamente serem seus filhos. Houve um deputado que, por fazer tamanha confusão entre ele mesmo e seu filho, tentou que o filho, que não foi eleito, votasse em seu lugar.

2. É certo que a Câmara foi eleita por quem viu naqueles sujeitos alguém capaz de os representar (noves fora o coeficiente eleitoral e as coligações, não são alienígenas), mas por que escolhemos justamente a parte pior? Não se trata nem de escolher os melhores como querem os aristocratas, mas custava votar pelo menos em quem não tem processo no STF? Concordância verbo-nominal e gosto estético não devem ser critérios para excluir ninguém da possibilidade de vir a ser representante, mas ser um bom cidadão deveria ser critério mínimo, não?

3. É assustadora a influência declarada de grupos e facções dentro do congresso. Não que não possa existir e menos mal se for transparente e de amplo conhecimento, mas quem representa o cidadão que não é médico, advogado, corretor de seguros, da Igreja Mundial do Poder de Deus, da Igreja Quadrangular, da Renovação Carismática Católica. Quem mesmo representa o interesse público, o interesse do cidadão comum? A julgar pelos deputados que se manifestaram pela TV Câmara são poucos.

4. É assustador o machismo dos deputados. Quando as deputadas Alice Portugal (PC do B-BA) e Moema Gramacho (PT-BA) foram discursar enfrentaram vaias como nenhum outro deputado homem também contrário ao impeachment, além de terem tido os seus rostos tapados por cartazes. Sim, esta é uma prática machista infelizmente corriqueira em nossa sociedade. O machismo que não admite que as mulheres ocupem lugares de poder, que fale, que discorde.Outras mulheres não sofreram a mesma violência, ou porque foram recatadas (conforme argumenta-se no perfil de Marcela Temer publicado pela Veja), ou porque não desagradaram os homens do entorno da tribuna.

moema

5. Muitas das performances que vimos não são oriundas da política, mas antes são do gênero Se Vira nos 30 do Faustão. Deve ter sido o fato da votação ter ocorrido em um domingo, não sei. Quem sabe seja uma reação adversa da publicidade gerada pela transmissão televisiva em cadeia nacional. Mas quem esperava palhaçada dos profissionais do riso, não recebeu. Tiririca foi ao microfone com cara de dúvida e, aparentemente, para agradar a horda disse “sim” ao prosseguimento do processo contra Dilma (no dia seguinte, Lula se disse traído por Tiririca, que supostamente teria prometido votar “não”).

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6. O discurso de ódio da família Bolsonaro é assustador e preocupante. Tanto o pai que é deputado federal pelo Rio de Janeiro, quando o filho que é deputado por São Paulo, homenagearam os militares golpistas de 1964 antes de votarem pelo “sim”. O pai, Jair Bolsonaro, cometeu o disparate de homenagear um torturador que fez misérias inomináveis contra a presidenta Dilma. O discurso é especialmente preocupante por ser uma afronta direta aos ideais da democracia e do liberalismo. Podemos assumir, portanto, que qualquer pessoa que se identifique como democrata ou liberal tem obrigação moral de tomar enérgica posição contrária, mas a oposição a Dilma prefere somar forças contra o governo. Enquanto isso Bolsonaro chega a 8% de intenções de voto para presidente em 2018, segundo a última pesquisa Datafolha, e tem a estrutura e o apoio do Partido Social Cristão (!) para crescer mais.

7. Existem ainda mentes pensantes na Câmara. O problema é que são poucos e estão quase todos com o governo. Como será a inteligência congressual de um possível governo Temer? Basta conhecer o regimento interno, tal como o Cunha?

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8. Por falar em Cunha, fica evidente o acordo conveniente entre ele e a oposição. Nenhum  dos grandes figurões da oposição foi capaz de criticá-lo, mesmo existindo tantas provas materiais de envolvimento do mesmo com o crime. Não por acaso, no dia seguinte não faltou deputado que propusesse anistia como agradecimento pelos “serviços prestados”.

9. Como ficará nosso presidencialismo? Quais os custos de escolhermos os nossos presidentes e o congresso se achar no direito de reformar as decisões assentadas no melhor exercício da liberdade dos cidadãos? Sempre que tivermos um cenário político-econômico difícil e um vice-com-idade-avançada-apetite-pelo-poder-e-nenhuma-perspectiva-de-ganhar-qualquer-cargo-relevante-através-do-voto-popular a soberania do voto do povo será cassada?

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Samuel Barros
Samuel Barros é mestre e doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); jornalista; pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Governo Eletrônico e Democracia Digital (CEADD); membro do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Democracia (CID); tem interesse por internet e política, consultas públicas online, deliberação pública online, democracia digital, deliberação midiática e jornalismo.

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