Início Democracia Digital Até onde vai o poder social das mídias sociais online?

Até onde vai o poder social das mídias sociais online?

2077
0
COMPARTILHAR

Click here to read this article in English

Um recente relatório da WIN Américas (Worldwide Independent Network of Market Research) me fez pensar em algumas questões que são comumente colocadas quando se fala de um suposto “poder social” das mídias sociais online. Mesmo depois de quase duas décadas de estudos sobre o impacto social de ambientes de socialização online, ainda é comum encontrar algumas suposições que, a meu ver, são demasiadamente simplistas e tecnocêntricas. Listo aqui algumas delas com base no relatório WIN.

O empoderamento cidadão

O relatório afirma que, na América, 53% dos entrevistados concordam com a afirmação de que “A internet dá mais poder aos cidadãos”. Essa taxa chega a 66% na América do Norte e cai para 40% na América Latina (note-se que não sabemos exatamente onde o México foi contabilizado, já que o país faz parte tanto da América do Norte, quanto da Latina). Trata-se de uma pergunta sobre a percepção dos entrevistados, e é interessante saber que mais da metade das pessoas consideram que as mídias sociais empoderam o cidadão. Seria ainda mais interessante, no entanto, saber exatamente que poder essas pessoas consideram que adquiriram e o que conseguiram mudar em suas realidades a partir disso.

post blocp1

Digo isso não por descrença de que as mídias sociais possam, em determinadas circunstâncias, permitir que ações cidadãs se estruturem mais facilmente, mas sobretudo pela necessidade de separar uma percepção genérica de resultados concretos. O fato de as pessoas acharem que a internet lhes dá mais poder não resulta automaticamente na existência efetiva desse poder, ainda que se possa argumentar coerentemente que a percepção também influencia a ação.

De toda forma, acredito que já temos tanto exemplos sociais concretos a serem analisados, quanto ferramentas metodológicas e de análise para complexificar um pouco mais essa discussão e ir a fundo na análise das consequências sociais do uso das mídias sociais na vida política e democrática, sobretudo em termos de participação e poder popular.

Diminuição de desigualdades econômicas

Segundo o relatório, “Existem controvérsias quanto à internet diminuir ou não a desigualdade entre ricos e pobres”. Bom, me parece mesmo que a controvérsia deve ser grande pois nunca ouvi falar de nenhuma política social ou de distribuição de renda promovida ou apoiada pela “internet”, seja lá o que for que essa palavra colocada dessa forma queira dizer.

post blocp2

Novamente é importante ressaltar que trata-se de uma pergunta de percepção. Portanto, o resultado de que 34% discordam da afirmação de que a internet teria diminuído a desigualdade e 31% concordam com ela reflete apenas a opinião dos entrevistados e não nenhum dado material sobre a vida deles. Não posso, no entanto, deixar de me perguntar se existe algum sentido para que se faça esse tipo de questionamento. Consigo ver algumas maneiras como a internet possa ter facilitado a formação, a informação, até a busca de emprego e renda de algumas pessoas. Isso tem merecido diversos estudos.

Mas seria possível dizer que “a internet” diminui desigualdades? Não consigo entender como uma plataforma de comunicação, uma tecnologia teria essa capacidade. Mais que isso, me preocupo que com a crise representativa que vivemos em várias partes, transfiramos expectativas que deveriam ser postas no sistema político para sistemas que, a meu ver, não têm a capacidade de responder a elas.

Criação e circulação de informações alternativas

“As redes sociais constróem hoje uma fonte de informação chave para a maioria dos usuários da internet”, informa o relatório. Segundo ele, seis em cada dez entrevistados informam ter lido sobre temas políticos nas redes sociais nos últimos 12 meses. Este é um dado interessante e que diz respeito ao real uso que as pessoas dizem fazer das redes sociais digitais.

Parece, de fato, que esses ambientes de socialização se consolidaram também como importantes ambientes de informação. A pergunta seguinte que precisa ser respondida é: o que as pessoas lêem nesses ambientes? Muitas vezes essa conclusão de que as pessoas estão se informando via mídias sociais leva automaticamente ao discurso de boicote às mídias tradicionais, de perda de confiança nos grandes conglomerados de mídia e de busca de informações consideradas alternativas.

Tudo isso me parece possível e plausível. Acredito que as mídias sociais de fato criam a possibilidade de surgimento de narrativas alternativas, pontos de vista de pessoas comuns, que muitas vezes se contrapõem ao que dizem as mídias hegemônicas. É preciso, no entanto, saber o que realmente está circulando nesses ambientes. Será que são apenas as opiniões das pessoas que usam esse espaço para se expressar ou será que boa parte do que se lê nas mídias sociais é exatamente o conteúdo dos meios de massa só que através de uma outra forma de distribuição?

Novamente ressalto que o meu objetivo aqui, nem de longe, é diminuir o papel social que as mídias digiais podem ter. Acredito apenas que algumas questões são importantes para compreender de forma mais profunda esse fenômeno. É preciso separar o direito de falar do poder de ser ouvido. É verdade que nessas mídias todo mundo pode dizer o que quiser e expor seu ponto de vista, mas isso não significa que essas opiniões estarão em pé de igualdade com as notícias dos meios de massa, que circulam com igual ou maior facilidade nestes meios.

Aumento do ativismo político

Para finalizar, quero falar um último ponto: como caracterizar o ativismo político online? Para o relatório, a gama de ações online que pode ser caracterizada como ativismo é grande e vai desde seguir uma página de um político nas redes até ir a uma manifestação convocada através das mídias sociais.

post blocp3

Acredito que há dois pontos importantes a serem abordados aqui. O primeiro é a caracterização mesma do ativimo: será que seguir a página de um político é mesmo um tipo de ativismo? Esse ativismo vale mais, menos ou igual a ir a uma manifestação? Se por um lado está claro que novas formas de ativismo estão se estruturando, por outro me parece que é preciso ser um pouco mais criterioso no que se pode considerar enquanto tal.

Segundo, me parece haver uma insistência em ver o mundo online como separado do offline, quando na verdade acredito que haja cada vez mais uma convergência entre os dois. O que é uma manifestação convocada pelas redes sociais? Se um amigo te convida em privado, pelo Whatsapp, para a manifestação, isso conta como convocação pelas redes? Ou só se for pública? E se um jornal impresso publicar uma notícia sobre a manifestação? E se for uma empresa de mídia tradicional que publicar em seu site e essa notícia começar a circular nas mídias sociais? Me parece que as interrelações e superposições entre o online e o offline são tantas e tão diversas que esse tipo de separação faz cada vez menos sentido.

Esses são alguns pontos sobre o impacto social das mídias sociais que acredito que atualmente merecem algum debate. Sem esclarecer e avançar na formulação sobre essas questões, as conclusões sobre os impactos dessas mídias tendem a ser, a meu ver, ainda muito superficiais e incipientes.

Nina Santos
Nina Santos é doutoranda no Centro de Análise e Pesquisa Interdisciplinar sobre os Media (CARISM) da Universidade Panthéon-Assas. Tem mestrado em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e especialização em Comunicação e Política pela mesma instituição. Tem experiência profissional no campo da comunicação política, democracia eletrônica e mídias sociais. Durante três anos e meio foi Editora de Mídias Sociais do Instituto Lula.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here