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* Diógenes (Didi) Pasqualini

Esse texto é inspirado em outro para o qual David Rose nos chama a atenção em seu livro Enchanted Objects (objetos encantados) e para como as coisas quando chegam à internet transformam aquilo que era velho, talvez, ultrapassado, em algo “super legal”. Não se trata de uma resenha do livro, apenas busca-se refletir – se é que ainda é moderno – este nosso apego incessante, para não dizer maluco, por aquilo que se nomina de novo. E, ainda, sobre como esta tendência tem sido usada por nós como “muleta”, já que, por si só, ela nos satisfaz sem muitos questionamentos: basta dizer sou o novo e represento o moderno, a mudança. Este tem sido discurso bem útil no nosso dia a dia.

Se a gente parar para pensar um pouco logo vem aquela pergunta: “para que mesmo serve tudo isso”? Estes encantamentos, pode ser, tenham um propósito; ajudam a “fabricar” ideologias, um pouco daquilo que pauta nossa vida, e nos obrigam a desempenhar na sociedade um único papel – dócil, consumista e defensor do descarte de tudo. É bem provável que as gerações que nasceram sob o signo do digital não tenham noção de que, há bem pouco tempo, consertavam-se as coisas e elas não eram substituídas, assim, tão facilmente. Um aparelho de TV, brinquedo, sapato e até roupas, entre outros já usados, passavam por “retífica” e voltavam quase novos para mais uma temporada. Isso mantinha certo relacionamento com algo material, não creio que pelo apego, mas pelas questões de como era o sentido das coisas, da vida e de nosso respeito ao planeta, mesmo que não fosse muito moda falar destas questões naquela época. Olha como éramos ecologicamente corretos e modernos! Não separávamos materiais, pois sua reutilização – e não reciclagem – em grande escala permitia que a natureza desse conta de fazer o serviço do pouco que era jogado fora. Sim, estes cuidados criavam outros hábitos em nós, que extrapolavam o material e se conduziam ao afeto, à afeição tão démodé em nossos dias.

Hoje, a proposta do “novo”, do descartável, nos coloca diante da lógica do consumo e do individualismo que suplanta o ambiente da materialidade, da competitividade, das disputas e chega até nossos relacionamentos, amizades, casamentos, religião, famílias, etc. Nada se retém, tudo é fluido, escapa pelas mãos e corre por uma enxurrada sem fim e descontrolada. Como ter o amor dos filhos, da pessoa amada, dos amigos, à religião, se nos dedicamos a empreender, competir, lucrar, “ser o melhor”, ter centenas de “amigos” virtuais e, ao mesmo tempo, nenhum? Será que é possível? O meio está mostrando que não, pois somos levados a obter e descartar tudo – a educação, o professor, a política, o político, a família, nossas crenças, os amigos, as ideologias… Quiçá caiba aí um pequeno retorno para entender qual é nosso lugar por aqui. Se é de utilidade ou utilitário.

Diógenes José Pasqualini
Diógenes José Pasqualini possui graduação em Comunicação Social pela Universidade Metodista de Piracicaba-SP, especialização em Marketing Político e Propaganda Eleitoral pela Universidade de São Paulo (USP). É mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Tem experiência nas áreas de jornalismo, propaganda, editoração, fotografia, campanhas eleitorais, marketing político e governamental. Foco de pesquisa concentra-se no estudo da mediação discurso político e a sua geração de sentido e consumo no meio ambiente.

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