Início Governança da Internet Novas fronteiras coloniais: repensando o acesso na Internet

Novas fronteiras coloniais: repensando o acesso na Internet

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por Kimberly Anastácio*

Já é clichê afirmar que a Internet reduz barreiras e aproxima pessoas. Afinal, vivemos em uma era em que amigos se encontram no Facebook e em que podemos comprar vinho de um pequeno produtor da França em minutos. Frente às maravilhas de se estar conectado, então, resta o desafio: levar acesso àqueles que ainda não sabem quão bom é possuir uma conta no Instagram.

Ora, a Internet de fato democratizou muita coisa. O conhecimento flui desafiando barreiras – e damos graças pelo torrent. Construímos redes de ativismo e questionamos governos autoritários – e damos graças pelo anonimato. Ainda assim, podemos dizer sem ressalvas que a Internet é um espaço aberto? Mais do que isso, que tipo de acesso é vendido para quem não está conectado?

Em 2015, o Facebook lançou a iniciativa Free Basics na Índia, promovendo acesso móvel gratuito a aplicativos e serviços com baixo consumo de banda. Meses depois, a Agência Reguladora de Telecomunicações do país proibiu esse e outros programas do tipo após consulta pública e intensos debates.1 Logo após a proibição, um membro do conselho do Facebook, Marc Andreessen, escreveu no Twitter: “O anti-colonialismo tem sido catastrófico economicamente para o povo indiano por décadas. Por que parar agora?”.2

Sem muito esforço, a conexão entre a forma de acesso promovida pelo Facebook e o colonialismo foi feita – e por alguém de dentro. À ocasião, questionava-se o fracasso do programa pela falta de tato da empresa em ouvir vozes indianas sobre como conectar o país segundo seus próprios termos.3 Entretanto, essa falta de tato, ou possível imposição unilateral de um modelo de conectividade à Internet, não ocorre apenas em iniciativas como o Free Basics.

O uso de algoritmos que definem o conteúdo que uma pessoa recebe já demonstra o poder que as plataformas possuem sobre os usuários. Para países historicamente atrelados ao colonialismo, então, essa questão é ainda mais clara, já que a produção de conteúdo local pode ser prejudicada frente ao predomínio da língua inglesa na Internet e de sites estrangeiros como resultados em buscadores, por exemplo. Uma visão pós-colonial da Internet poderia romper com essa lógica, problematizando a Internet enquanto tanto mecanismo de empoderamento quanto de dominação de empresas, países e lógicas colonizantes do ocidente.

Assim, um paradoxo se manifesta na rede. A Internet pode democratizar espaços e dar voz a minorias, mas pode também reforçar desigualdades e servir a interesses monopolizantes, limitando o acesso e suprimindo iniciativas locais. Esse paradoxo parece estar no centro de um tipo emergente de dominação, um colonialismo digital, em que, mesmo com o acesso à Internet, assimetrias permanecem marcando as relações entre quem está ou não integrado na sociedade global.

 

*Kimberly Anastácio é mestranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB).

Referências

  1. TRAI supports Net Neutrality, effectively bans Free Basics: All that happened in this debate. Disponível em:<http://indianexpress.com/article/technology/tech-news-technology/facebook-free-basics-ban-net-neutrality-all-you-need-to-know/> Acesso em agosto de 2015.
  2. Facebook director apologizes for ‘colonialism’ remark, Zuckerberg calls it upsetting.  Disponível em:  <http://indianexpress.com/article/technology/social/facebooks-director-marc-andreessen-colonialism-tweet/#sthash.dGXlsZjh.dpuf> Acesso em maio de 2015.
  3. Comentário de um blogueiro indiano ao Free Basics. Disponível em:<https://www.facebook.com/zuck/posts/10102641883915251?comment_id=1815376578733248&comment_tracking=%7B%22tn%22%3A%22R9%22%7D> Acesso em maio de 2016.
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