Início Jornalismo Político A carta do assassino de Campinas deveria ter sido publicada?

A carta do assassino de Campinas deveria ter sido publicada?

1759
0
COMPARTILHAR
Pocket

Após o assassinato de vários integrantes de uma família, cujo autor foi o ex-marido de uma das vítimas, O Estado de S. Paulo teve acesso à carta deixada pelo assassino e a publicou. A publicação gerou algumas reações e é isto que pretendo discutir neste texto.

De antemão, devo dizer que não tenho uma posição fechada sobre a divulgação da carta do assassino de Campinas. Se fosse editora e tivesse acesso ao material, não tenho certeza sobre qual seria a minha decisão quando à publicação ou não do documento. Dito isso, creio que vale a pena pensar sobre o papel do jornalismo neste tipo de situação, dada a frequência com a qual mulheres são vítimas de violência e o quanto estes acontecimentos são absolutamente inaceitáveis e precisam ser combatidos veementemente.

Por um lado, argumenta-se, com razão, que divulgar a carta – que traz, abertamente, um discurso de ódio – seria oferecer visibilidade a este tipo de posicionamento. Poderia ser, até mesmo, incentivo a ações parecidas. Não haveria, portanto, nenhum serviço à democracia e à causa de combate à violência contra a mulher em sua veiculação.

Acredito que os pontos acima são essenciais de serem considerados em todos os casos semelhantes. Ao mesmo tempo, a argumentação a seguir não pode ser aplicada a todo tipo de acontecimento, de cobertura ou de documento cedidos aos jornalistas. No caso do feminicídio de Campinas, não acredito que, por si só, a divulgação do documento seja condenável. Ela cria, porém, enormes responsabilidades ao Jornalismo.

A carta escancara as raízes da violência doméstica e contra a mulher, reforçando seu combate como uma agenda urgente para a sociedade. Ao publicá-la, os jornais apontam para a importância da pauta, mas isto não é suficiente.

Para evitar que se trate apenas de exploração da tragédia – ou de visibilidade a discursos de ódio –, é necessário que as empresas jornalísticas atuem de maneira pedagógica. A carta – e o caso de feminicídio – não podem ser tratados de maneira trivial. A divulgação do documento deve ser acompanhada de matérias especiais sobre violência contra a mulher, ouvindo especialistas, militantes e outros e outras agentes – utilizando, claramente, tom de combate às agressões. O caso – e o leque de questões mais amplas que ele abre, como perigos do machismo e necessidade de combate ao feminicídio, violência doméstica, etc – deve ser debatido em editoriais, com clara condenação a todas estas práticas, oferecendo o destaque que a questão exige. A quantidade de mulheres vítimas de violência doméstica mostra o quanto a temática precisa ser debatida – e a necessidade da existência de um consenso sobre serem atos injustificáveis e inadmissíveis, que o Jornalismo pode colaborar para construir.

A chacina não pode ser tratada como crime rotineiro. A cobertura deve colaborar para consolidar o assunto como uma agenda de interesse da sociedade, apontando claramente que este caso – e os semelhantes – são intoleráveis. Em momentos como este, é necessário que o Jornalismo exerça sua função de expor que questões merecem atenção por parte da sociedade, mas também precisa apontar caminhos para evitar que o acontecimento se repita.

Camila Mont'Alverne
Camila Mont'Alverne é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE).

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here