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A adversarialidade do Jornalismo brasileiro e a confiança nas instituições

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Nos últimos anos, a literatura tem debatido acerca do papel adversário ao campo político que o Jornalismo tem assumido (ALBUQUERQUE, 2013; CLAYMAN, 2002; CLAYMAN et al., 2006, 2007; CLAYMAN; FOX, 2016; ERIKSSON; OSTMAN, 2013; GOMES, 2012; VAN DALEN, 2012; VAN DALEN; ALBÆK; DE VREESE, 2011). Para além da postura desconfiada do jornalista como cão-de-guarda, o Jornalismo adversário se expressa em perguntas e ilações feitas “em nome do público”, na construção de situações nas quais o agente político se vê incidindo em contradições ou no papel do repórter em explicar como as ações dos políticos devem ser compreendidas (frequentemente, ressaltando que elas almejam a preservação das próprias em detrimento do interesse público).

Por um lado, é papel do Jornalismo político questionar os agentes públicos, apanhá-los em contradição e expor os problemas que negam existir. Por outro, é necessário considerar os problemas que podem ser gerados à confiança na democracia por parte dos cidadãos quando a representação constante do campo político é pautada em cinismo e em desconfiança. Também deve-se levar em conta que a esfera jornalística se legitima a partir da descrença no campo político, pois dispõe da oportunidade de se mostrar como a real representante da sociedade.

É necessário considerar, porém, o quanto os próprios jornalistas também são desconfiados em relação às instituições – e isso pode fazer com que o material que produzem adote a perspectiva adversária como padrão. O texto discute este ponto a partir dos dados da pesquisa World of Journalism Study, realizada entre 2012 e 2016, com mais de 27500 jornalistas de 67 países. No caso brasileiro, a amostra foi de 376 profissionais. Os dados dos gráficos abaixo apresentam a porcentagem de profissionais que afirmou possuir confiança total ou muita confiança naquelas instituições.

Fonte: World of Journalism Study (2017)

Os dados mostram que o jornalista brasileiro é desconfiado em relação a todas as instituições. A mais confiável, de acordo com os dados acima, é a mídia – e, ainda assim, com pouco mais de 20%. Chama atenção a diferença de confiança no Judiciário em relação às instituições diretamente ligadas ao campo político, como Parlamento, governo e partidos políticos. Isto pode contribuir para explicar, inclusive, por que as pautas provenientes do Poder Judiciário parecem receber menor grau de adversarialidade – frequentemente, com os integrantes de tal Poder passando por menor escrutínio em relação àqueles agentes provenientes do campo político.

Em relação ao campo político de maneira mais estrita, há baixíssima confiança. Os partidos políticos e os políticos em geral não chegam a ter 1% dos jornalistas entrevistados confiando neles (0,5% no primeiro e 0,8% no segundo). O Parlamento também tem baixo índice de confiança, com 2,5%, enquanto o governo fica com 6%. Estes dados colaboram para explicar por que a cobertura sobre política no Brasil tende a ser adversária, pautada na ideia de que os agentes políticos defendem apenas os próprios interesses.

Dois pontos precisam ser ressaltados, antes de concluir o texto. A desconfiança nas instituições não significa que elas sejam vistas como dispensáveis. Em alguma medida, a desconfiança pode ser saudável, indicando que a sociedade está atenta ao que se passa. No caso de jornalistas, algum grau de desconfiança é até necessário, devido à natureza da atividade. Ao mesmo tempo, é importante levar em conta que o contexto de crise política e econômica, em conjunto com a percepção de que as instituições não são confiáveis, pode dar espaço a experiências e agentes provenientes de fora do sistema político, que se apresentam como os únicos capazes de resolver os problemas pelos quais passa o país. A rejeição à política deve ser encarada com cautela, pois as soluções que se propõem fora dela costumam gerar enormes prejuízos – de cunho econômico, social e de respeito aos direitos humanos.

Que a população brasileira não confia na democracia e nas instituições não é novidade, conforme apontam resultados do relatório do LatinoBarómetro. O fato mais preocupante revelado pela WJS é que os agentes responsáveis por mediar boa parte do contato entre a sociedade civil e o campo político também desconfiam do último, o que pode contribuir para uma corrosão da legitimidade dos agentes deste campo, das instituições e do próprio regime democrático.

 

Referências

ALBUQUERQUE, A. DE. Em Nome do Público: Jornalismo e Política nas Entrevistas dos presidenciáveis ao Jornal Nacional. E-compós, v. 16, n. 2, p. 1–23, 2013.

CLAYMAN, S. E. Tribune of the people: maintaining the legitimacy of aggressive journalism. Media, Culture & Society, v. 24, n. 2, p. 197–216, 1 mar. 2002.

CLAYMAN, S. E. et al. Historical Trends in Questioning Presidents, 1953-2000. Presidential Studies Quarterly, v. 36, n. 4, p. 561–583, 2006.

CLAYMAN, S. E. et al. When Does the Watchdog Bark? Conditions of Aggressive Questioning in Presidential News Conferences. American Sociological Review, v. 72, n. 2005, p. 23–41, 2007.

CLAYMAN, S. E.; FOX, M. P. Hardballs and Softballs: Modulating Adversarialness in Journalistic Questioning, 2016.

ERIKSSON, G.; OSTMAN, J. Cooperative or Adversarial? Journalists’ Enactment of the Watchdog Function in Political News Production. The International Journal of Press/Politics, v. 18, n. 3, p. 304–324, 2013.

GOMES, W. Entrevistas com candidatos a presidente transmitidas “ao vivo” em telejornais: o modelo teórico-metodológico da mediação jornalística. Compolítica, v. 2, n. 2, p. 6–26, 2012.

VAN DALEN, A. Structural Bias in Cross-National Perspective: How Political Systems and Journalism Cultures Influence Government Dominance in the News. The International Journal of Press/Politics, v. 17, n. 1, p. 32–55, 1 jan. 2012.

VAN DALEN, A.; ALBÆK, E.; DE VREESE, C. Suspicious minds: Explaining political cynicism among political journalists in Europe. European Journal of Communication, v. 26, n. 2, p. 147–162, 2011.

Camila Mont'Alverne
Camila Mont'Alverne é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE).

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