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A atuação política do Jornalismo brasileiro: o caso da gravação de Temer

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Desde a revelação do conteúdo dos áudios gravados pelo dono da JBS Joesley Batista envolvendo o Presidente Michel Temer, as grandes empresas de comunicação brasileira estão divididas em suas posições acerca do governo e dos encaminhamentos para a crise instalada. Uma coisa é certa, porém: elas estão atuando politicamente, alinhando-se ou opondo-se à Presidência.

O grupo Globo, tanto em no jornal impresso, como no caso da rede de televisão, tem assumido uma postura de confronto ao governo, enquanto os grandes jornais paulistas – O Estado de S. Paulo (OESP) e Folha de S. Paulo (FSP) – evitam encurralá-lo, apresentando certa paciência e cautela. A expressão das escolhas editoriais não se apresenta apenas no conteúdo opinativo – espaço no qual, por excelência, as empresas e os colunistas podem apresentar seus posicionamentos. Elas também estão presentes no material informativo, tanto no caso do Grupo Globo quanto no caso dos periódicos paulistas. A seguir, será feito um breve apanhado da atuação das instituições jornalísticas desde que o escândalo envolvendo o Presidente veio à tona, com algumas especulações sobre os motivos para seus comportamentos.

O Jornal O Globo é quem publica as primeiras notícias sobre a gravação na qual Temer dá aval para a compra de silêncio de Eduardo Cunha, sendo seguido pelas outras empresas jornalísticas do país, inclusive com plantão da Rede Globo para noticiar o caso. Até aí, nada de inesperado, dada as proporções do acontecimento. O que se desenrola nos dias seguintes é que chama atenção.

No dia 19 de maio, FSP e OESP publicam editoriais que, em níveis diversos, evitam entrar em conflito com o governo. O editorial do primeiro demanda esclarecimentos sobre os áudios, mas ressalta que se trata de uma peça inconclusiva do ponto de vista jurídico.  Já o de OESP dedica-se à defesa de Temer, em nome da estabilidade do país. É curioso que trechos de tal editorial são semelhantes a trechos do pronunciamento do Presidente. O editorial de O Globo, por sua vez, já se dedica a discutir o próximo passo após a saída do Presidente, defendendo que não há saída fora da Constituição.

As capas dos periódicos também possuem ênfases distintas no dia. A da FSP ressalta que o áudio é inconclusivo, enquanto as de OESP e de O Globo tratam mais diretamente da fala de Temer, do inquérito no STF e de que o Presidente teria ouvido crimes serem relatados por Joesley Batista.

No dia 20 de maio, os posicionamentos assumidos pelas empresas se tornam mais claros – tanto nos editoriais quanto na seção informativa. Em editorial publicado no portal na tarde do dia anterior e no jornal do dia 20, O Globo pede a renúncia de Temer, subindo o tom em relação ao Presidente. OESP mantém certo alinhamento com o governo e defende a observância do que prevê a Constituição, enquanto FSP dedica seu editorial principal a tratar das acusações contra o senador Aécio Neves.

As escolhas editoriais das empresas também transparecem no conteúdo informativo. Tal movimento é explicitado com as diversas versões sobre as edições sofridas pelo áudio. Há grande discordância acerca da quantidade de cortes sofrida pelo material – embora os peritos contatados por todos os jornais concordem que partes comprometedoras da gravação não sofreram alterações. A matéria da FSP sobre o assunto embasa, inclusive, o pronunciamento de Temer, na tentativa de desqualificar as provas. O Jornal Nacional, por sua vez, aciona peritos para contradizer as informações de FSP e OESP. Não fica nisso, porém, a cobertura adversária em relação ao governo. O JN aponta contradições entre o pronunciamento de Temer e o conteúdo da fita; algo semelhante ao que também é feito pelo Jornal O Globo.

No domingo, dia 21 de maio, os editoriais de OESP e FSP alinham-se à defesa das reformas e da melhoria da economia alegadas por Temer. No caso do Estadão, dois de seus três editoriais diários tratam do assunto, defendendo que a recuperação do país – e o fim da crise – passa pelas reformas. O segundo editorial que menciona a crise política também defende a continuidade das políticas econômicas adotadas pelo governo. O editorial da FSP deixa claro que a prioridade dos periódicos paulistas é a economia, ao afirmar que as propostas de reforma devem permanecer em andamento no Congresso, independentemente do desfecho da crise. Por fim, o editorial de O Globo tem um tom mais político, afirmando que a visita de Joesley a Temer expõe as engrenagens da “velha política”, que deveria deixar de ter espaço no país. Em termos de conteúdo informativo, a capa dos três periódicos repercute o novo pronunciamento do Presidente, realizado no sábado. O Globo ainda retoma a polêmica sobre a edição dos áudios, contrapondo a versão de outros peritos à do perito contatado pela FSP.

Diante do apanhado acima, é visível que as três grandes empresas jornalísticas brasileiras atuaram de maneira política. Chama atenção, todavia, a diferença entre os posicionamentos assumidos, especialmente, quando se compara o bloco formado pelos periódicos paulistas com aquele contemplando produtos do Grupo Globo. O que leva o conglomerado Globo a partir para o confronto com o governo Temer, enquanto FSP e OESP evitam fazê-lo?

Deve-se levar em conta que as denúncias preenchem (muito bem) os critérios de noticiabilidade, responsáveis por nortear a cobertura. Assim, nenhum dos periódicos pode ignorar os fatos, embora já se tenha demonstrado que podem escolher o enquadramento mais confortável para abordá-los. Deve-se levar em conta que O Globo deu o furo de reportagem, fazendo com que tenha se tornado o “dono da pauta”. Assim, ao permanecer na dianteira da cobertura sobre os desdobramentos, e ao seguir à frente no confronto ao governo, tem a possibilidade de estabelecer a agenda, apontando quais saídas para a situação seriam mais adequadas e direcionando os rumos da discussão. Indicar as saídas cabíveis parece ser justamente a preocupação de O Globo, ao defender a “saída constitucional” quando da queda de Temer; ou seja, eleições indiretas. Além disso, a empresa também tenta fortalecer sua credibilidade e relevância, tanto que comemora o recorde de audiência após a divulgação do caso.

A questão econômica também pode contribuir para explicar os posicionamentos assumidos. Aventou-se a hipótese de que o Grupo Globo tem confrontado Temer porque a JBS é uma de suas maiores anunciantes. O problema deste raciocínio é que, por tal lógica, dificilmente a mídia brasileira seria crítica a qualquer ocupante do governo federal, tendo em vista o quanto é gasto em publicidade. É mais importante notar que a JBS, assim como outras empresas cujos integrantes estão envolvidos em corrupção, não são enquadradas de maneira tão negativa quanto os agentes do campo político. Isto pode indicar a existência de diretriz editorial para preservá-las, junto a um direcionamento dos próprios critérios de produção jornalística, que tende a priorizar escândalos e pautas negativas a partir dos envolvidos que pertencem ao campo político.

Em outro sentido, os interesses econômicos também parecem explicar por que os jornais paulistas se mantêm alinhados ao governo. Como fica claro pelos editoriais elencados acima – especialmente, por aqueles publicados no domingo –, a grande prioridade de FSP e OESP são as reformas e a melhoria dos índices econômicos. Enquanto os periódicos ainda acreditarem que Temer é capaz de cumprir a missão, a tendência é que continuem apoiando o governo. A gravidade das acusações da delação de Joesley são, até mesmo, relativizadas, em nome da “recuperação do país”.

A atuação dos periódicos deixa clara, portanto, o quanto as acusações podem ser instrumentalizadas de acordo com os interesses das empresas jornalísticas. Podem, inclusive, ter sua gravidade relativizada ou não. Isto mostra que, se as empresas não podem desconsiderar os acontecimentos, podem adequar a cobertura de forma a torná-los mais confortáveis a suas posições. Tal movimento, contudo, representa um risco, na medida em que os leitores percebem os compromissos expressos nas decisões editoriais, trazendo o potencial de comprometer a credibilidade dos periódicos. O movimento também aponta que, não obstante afirmem o contrário, as empresas são portadoras de agendas e demandas próprias, que nem sempre coincidem com o interesse público.

Camila Mont'Alverne
Camila Mont'Alverne é doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Integrante do Grupo de Pesquisa em Política e Novas Tecnologias (PONTE).

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