Início Comunicação Política A guerra de Temer contra os memes

A guerra de Temer contra os memes

612
0
COMPARTILHAR
Pocket

Ao tentar proibir memes com a imagem do mandatário, além de ameaçar a liberdade de expressão, governo demonstra desconhecer completamente a dinâmica das mídias sociais.

Desde o começo deste governo, vejo com espanto a prática das páginas institucionais no Facebook de compartilhar posts de páginas dos políticos. Além de ser algo que, salvo engano, nunca havia sido feito (não me lembro de nenhuma ocasião em que a página do Planalto tenha compartilhado um post da página de Dilma, por exemplo), não me parece servir a nada mais que levar benefícios pessoais aos políticos mencionados. Trata-se de uma confusão entre público e privado, Estado e governo que se expressa em formas bastante primárias.

Não bastasse esta prática um tanto reprovável, o Palácio do Planalto apareceu, esta semana, como protagonista de mais uma ação relativa a redes sociais. Duas páginas de Facebook anunciaram que foram contatadas pelo governo com avisos de que as imagens de Michel Temer só poderiam ser usadas para fins jornalísticos ou para divulgar campanhas do governo. Segundo a mensagem, para todos os outros usos seria necessário pedir autorização da Secretaria de Imprensa da Presidência. Dado que se tratam de páginas humorísticas, cheias destes memes que circulam muito rapidamente na internet, a ação foi vista como uma tentativa (um tanto inocente, para dizer o mínimo) de brecar a produção desse tipo de material com a imagem do mandatário.

Além de ser uma decisão que politicamente fere o direito de liberdade de expressão, ela deixa claro um completo desconhecimento da dinâmica de funcionamento das mídias sociais. O governo age como se fosse possível controlar o conteúdo que circula na rede disferindo ordens para alguns atores considerados centrais. Desconsidera com isso a velocidade de disseminação da informação, a capacidade de reprodução das páginas e de criação de novos centros de atenção. Da mesma forma como, segundo a Folha de S. Paulo, o ministro Moreira Franco conversou com João Roberto Marinho para reclamar da cobertura que a Rede Globo tem feito deste capítulo mais recente da crise política, acredita-se que o mesmo procedimento pode funcionar com páginas de Facebook.

Não estou tentando dizer aqui que jornalistas de meios de comunicação e gestores de páginas de Facebook sejam mais ou menos susceptíveis de ceder à pressão governamental, estou apenas tentando evidenciar as diferentes lógicas com que estes ambientes comunicacionais funcionam. A meu ver, é isto que o governo não consegue entender.

Tenho visto poucas análises sobre a política de mídias sociais do governo atual e tampouco creio que ela sozinha possa dar respostas sobre a concepção de comunicação e de sociedade deste governo. Daí, no entanto, podem sair indicadores importantes. Enquanto governos, partidos e atores políticos em geral não se derem ao trabalho de compreender o papel da comunicação em rede não apenas como ferramenta, mas como elemento de transformação social, o descompasso entre sociedade e instituições políticas só tende a aumentar.

Nina Santos

Nina Santos é doutoranda no Centro de Análise e Pesquisa Interdisciplinar sobre os Media (CARISM) da Universidade Panthéon-Assas. Tem mestrado em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e especialização em Comunicação e Política pela mesma instituição. Tem experiência profissional no campo da comunicação política, democracia eletrônica e mídias sociais. Durante três anos e meio foi Editora de Mídias Sociais do Instituto Lula.


DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here