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Jornal Nacional: A montanha, o rato e a Lava Jato

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por Camilo Aggio*

No final da tarde desta quarta-feira (17 de maio), mais uma pretensa edição do “fim do mundo”, produzida pela Operação Lava Jato em coprodução com Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, foi ao ar em cada canto onde se pudesse identificar o mínimo de atenção pública. Desta vez, ao menos em termos de espanto e choque, o grau de exaltação dos ânimos – principalmente políticos e jornalísticos – deixaram a esperada hecatombe da lista de Rodrigo Janot e Edson Fachin parecer um filme recreativo, sem grandes surpresas e emoções, da Sessão da Tarde.

Seja pelo fato das atenções e emoções públicas terem sido mobilizadas pela expectativa de que entraríamos para o livro dos recordes das democracias contemporâneas como o sistema mais veloz e eficiente de produção de impeachments em curtíssimo espaço de tempo, seja pela surpresa com que a segurança de certos setores sociais foi abalada com as informações publicadas por Lauro Jardim.

A inserção do Plantão da Globo que foi ao ar na tarde quarta-feira e que se multiplicou velozmente em sites de redes sociais é emblemático e representativo desse momento. Com voz visivelmente trêmula, quase embargada e um semblante de terror indisfarçável, a jornalista e apresentadora Renata Vasconcelos não divulgava uma nova informação política em caráter de urgência, mas um repentino e chocante falecimento – o que, convenhamos, não deixa de estar em plena sintonia com a já mais do que consolidada imagem pública do temido Plantão.

Passadas mais de 24 horas de apuração e depuração, os brasileiros tivemos, enfim, contato com uma edição do telejornal de maior audiência construída com o tempo mínimo necessário para se confeccionar sínteses e estratégias de apresentação dos fatos e personagens envolvidos no fim do mundo de quarta-feira que não veio e não virá. É sobre a edição do Jornal Nacional de quinta-feira e a dobradinha Lauro Jardim/Lava-Jato que faço dois pequenos comentários com pretensões críticas e contextuais. Enumero-os, respectivamente:

1 – As regras e estratégias são claras. Se o foco for um furo que implique Lula, o Jornal Nacional não divide espaço com qualquer outro fato político. Sua audiência já aprendeu isto com as sucessivas edições (quase-)especiais sobre o ex-presidente. É sempre sobre Lula, Lula, Lula, sítio, triplex, Lula, triplex, sítio, amigo de Lula, Dilma, amigo de Lula, Lula, Fórmula 1 e fim. Edições com alto teor explosivo e informações relacionadas são, ainda, espremidas à exaustão de modo a manter os fatos e personagens aquecidos ao longo da semana, como, demonstrativamente, foi feito à exaustão, com as escutas telefônicas de Lula e até de seus familiares falando mal de tudo e de todos. Mãe e filho conversando sobre protesto foi considerado informação de relevância pública, por exemplo. Cada vírgula detalhada.

O telejornal do dia após “a bomba” ter sido lançada por Lauro Jardim, já deu o tom de como tratará o caso Temer. A regra é diluir. Dividir espaço. Misturar Michel Temer com o resto, mexer a água para agitar os resíduos acomodados ao fundo e tornar a água turva.

A edição começou como uma cortina de fumaça representada por uma matéria mostrando como a JBS é um monstrengo que se expandiu graças a vultuosas verbas públicas dos GOVERNOS PETISTA DE LULA E DILMA. Depois fala de Aécio e de sua irmã, com um detalhe importante: PERRELA é do PMDBÉ isso que define sua identidade. A julgar pelo que apresenta o JN, Aécio e Perrela não possuem e nunca possuíram quaisquer relações. Amigo, claro, são os outros do outro. Em seguida, volta PT, mas agora Guido Mantega envolvido em esquemas com a JBS.

Emenda com Sergio Fernando num enquadramento que remete à reprimenda que dada por Moro em Eduardo Cunha em um de seus depoimentos em razão do primeiro ter entendido que o presidiário queria comprometer o presidente. Michel Temer é caracterizado num enquadramento curioso: vítima que está sendo chantageada por Cunha. Nenhuma voz do telejornal cogita especular por quais razões e motivos o atual presidente seria passível de chantagem. Bom, Sergio Moro e o Jornal Nacional devem entender que essa informação não é de interesse público.

Enfim, trata do caso da gravação de conversa do empresário da JBS com Michel Temer (sobre a qual tratarei no ponto seguinte) e conclui o bloco, primeiro, como ministros falando da importância de tirar o Brasil da crise e termina com o temor do mercado com o risco da economia brasileira descarrilar mais uma vez (vende-se que aos trilhos voltou), o que endossa com grande reforço coisa que Temer também disse em pronunciamento, em forma de autodefesa, reproduzido quase na íntegra na mesma edição do telejornal.

2 – Sobre a Lava-Jata e o jornal O Globo: a montanha pariu um rato. E não é a primeira vez. Se o que a Lava Jato tem foi o que o jornal O Globo vendeu como uma hecatombe na quarta-feira, a ponto de Renata Vasconcelos não segurar os ânimos, então, amigos, ao considerar o áudio, a verdade é que a força-tarefa tem pouco ou quase nada para incriminá-lo ou continuar produzindo estragos em seu governo.

Na conversa, Michel Temer é lacônico, evasivo, no mínimo impreciso no que diz e a que se refere. Nada na frase que se destacou pode garantir inferência precisa e, de fato, comprometedora: a saber, que a fala do “presidente” não deixaria quaisquer dúvidas de que ele pede, efetivamente, que o silêncio de Cunha seja ou continue sendo comprado, ou mesmo que consinta com o empreendimento. O próprio empresário da JBS é confuso ao usar eufemismos e balbuciar expressões dúbias na sua tentativa de induzir algum tipo de comprometimento de Michel Temer. Juntando as duas coisas, há lacunas de sobra para serem preenchidas pela defesa do “presidente”, a exemplo da possibilidade, mais do que possível, de argumentar que a toda devastadora frase “tem que manter isso aí” se refere não à pretensa insinuação do suborno à Cunha, mas de que o empresário continue no “zero a zero” ou “de bem” com o Eduardo. Trocando em miúdos, eu posso até ter plena convicção de que Michel Temer tinha conhecimento pleno sobre o que estava sendo tratado ali, mas daí a alegar que se o dito se trata de prova de algo, vai muita fé, desejo e cinismo. E nada disso pode fazer alguma justiça.

Enfim, nada de novo aí. O mesmo aconteceu com Lula e Dilma. A única diferença é que Michel Temer tem aliados. Muitos. No Congresso, no Judiciário e na imprensa, como não me deixa e não me deixará mentir o Jornal Nacional e outros veículos de comunicação, como a Folha de São Paulo que publica em sua capa, no mesmo dia de publicação deste texto, que “áudio sobre Cunha é inconclusivo”.

Ele não será tratado como Dilma e Lula como no famoso e controverso episódio do “Bessias” em que “tudo e todos” se esforçaram para transformar o impreciso, o ambíguo, em objetividade inquestionável: os diálogos entre os dois ex-presidentes, naquela ocasião, sequer chegaram perto de serem tratados em sua condição “inconclusiva”, “ambígua”, “polissêmica” por setores então poderosos e engajados, mas sim demonstravam cabalmente o desvio de função da indicação do segundo como ministro. De grande parte da grande imprensa ao Supremo Tribunal Federal que, ao fim, em decisão de um magistrado, suspendeu a posse de Lula como ministro. Nenhuma outra possibilidade de interpretação e justificação foi levada em consideração, a exemplo da também mais do que plausível inferência de que a medida pretendia recuperar negociações com o Congresso para salvar um governo ofegante.

Com Michel Temer, a história será outra. Melhor, já está sendo. Podem me cobrar.

 

* Camilo Aggio é professor de Teorias da Comunicação na UFMG.

autor convidado
O Blog Comunicação e Política agradece a todos seus autores convidados pelas suas contribuições.

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