# Oposição e Amorim divergem sobre atritos entre Brasil e EUA

> Celso Amorim, assessor especial da presidência, atribui os atritos entre Brasil e EUA a motivações políticas do governo Trump. Deputados da oposição, em comissão na Câmara, responsabilizam o governo brasileiro pela deterioração da relação bilateral. A divergência expõe interpretações opostas sobre a origem das tensões diplomáticas, sem consenso sobre responsabilidades ou estratégias de resposta.

*Comunicação e Política · Destaques · 12 de agosto de 2026 · Henrique Vasconcelos Lobão*

Deputados da oposição e o assessor especial da presidência, Celso Amorim, divergiram em comissão na Câmara sobre os atritos entre Brasil e EUA sob Trump. Amorim vê motivação política; oposição responsabiliza o governo brasileiro.

## Oposição e Amorim divergem sobre atritos entre Brasil e EUA sob Trump

Deputados da oposição e o assessor especial da presidência da República, embaixador Celso Amorim, divergiram em comissão na Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira (12), sobre os atritos recentes nas relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos (EUA). O embate expôs duas leituras opostas sobre a mesma crise: uma que enxerga motivação política em Washington, outra que aponta o Brasil como origem do problema.

## Amorim vê motivação política no tarifaço

Amorim argumentou que as ações dos EUA contra o Brasil, como o recente tarifaço, têm motivação política. Segundo ele, a Casa Branca sob Donald Trump tenta subordinar a América Latina aos interesses do país norte-americano.

"O presidente Lula tem sido firme em reiterar que não aceitaremos que medidas unilaterais sejam utilizadas como pretexto para relativizar a soberania nacional ou impor constrangimentos econômicos para o nosso país", destacou.

O embaixador citou vídeo publicado pela diplomacia estadunidense, na terça-feira (11), em que afirma que a dominação dos EUA sobre a América Latina não deve ser questionada. "Quem tiver visto o vídeo que foi divulgado ontem pelo Departamento de Estado, e lido pelo embaixador dos EUA no Panamá, verá que o que se quer fazer justamente é relativizar a soberania dos países latino-americanos em geral. Inclusive, naturalmente, o Brasil", completou.

## Oposição responsabiliza governo brasileiro

De outro lado, parlamentares da oposição tentaram responsabilizar o governo do Brasil pelas ações do governo Trump, como sustentou o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP).

"A atual conversão do Brics em uma linha de frente anti-ocidental demonstra um padrão sistemático de anti-americanismo, que priorizou o debate retórico e a vaidade pessoal em detrimento do pragmatismo comercial estratégico do Estado brasileiro", afirmou o parlamentar. O Brics é um grupo político e econômico formado por grandes países emergentes, entre eles Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Os membros do Brics costumam negar ser um grupo anti-ocidental, citando inclusive a participação da Índia, país historicamente próximo dos EUA.

O deputado Luiz Philippe ainda pediu que o governo brasileiro "destrave" a concessão do visto diplomático ao indicado pela Casa Branca para ser embaixador no Brasil, de Daniel Pérez. A demora levou os EUA a cancelar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti.

Já o deputado Marcel Van Hatten (Novo-RS) sustentou que houve uma "agressão à soberania dos EUA" por parte do Brasil devido, entre outros motivos, ao bloqueio de contas de empresas estadunidenses no caso do processo envolvendo a rede social X, que se negou a cumprir decisões judiciais do Brasil. "O que nós estamos vendo é uma agressão brasileira à soberania americana. Dizer que o tarifaço não tem relação com o que o Brasil está fazendo com os EUA é maquiar os fatos", disse.

## Amorim rebate tese ideológica

O assessor especial da presidência da República Celso Amorim rebateu a tese de que os atritos com a Casa Branca teriam razões ideológicas. Segundo o embaixador, o Brasil está aberto a negociar com qualquer governo, independente das posições políticas.

O embaixador brasileiro acrescentou que o governo federal decidiu não conceder vistos diplomáticos a representantes estrangeiros, de qualquer país, até as eleições de outubro. Ele classificou como "bizarra" a divulgação do indicado para embaixador dos EUA no Brasil antes do Itamaraty aceitar o pedido, o que contraria os tratados internacionais.

"Os EUA ficaram mais de um ano e meio sem embaixador aqui depois que saiu a embaixadora do governo [Joe] Biden. Ficava aqui um encarregado de negócios [dos EUA]. De repente, na proximidade das eleições, às pressas, sem o nosso consentimento, querem creditar outro embaixador", comentou. Para o governo brasileiro, existe uma tentativa de Donald Trump de interferir nas eleições brasileiras.

## Classificação de facções como terroristas

O embaixador Celso Amorim foi convidado à Comissão de Relações Exteriores da Câmara para comentar, entre outros assuntos, a decisão dos EUA de classificar as facções criminosas do Brasil como organizações terroristas. O assessor presidencial explicou que a medida não pode ser descontextualizada das ações recentes da Casa Branca e do momento que o mundo vive. Para o Planalto, a decisão pode ser usada como pretexto para intervenções externas no Brasil, inclusive militares.

"Não se pode ignorar que determinadas interpretações extremas da classificação como terrorista ou narcoterrorista já foram utilizadas para justificar operações de força em outros contextos internacionais", disse. Para Amorim, a classificação pode ser manipulada geopoliticamente para interferir nos assuntos internos do Brasil e, por isso, o governo brasileiro tem se posicionado contra essa designação por parte da Casa Branca.

"De acordo com a lei americana, o fato de ser classificada como terrorista, dá poder aos EUA para agir militarmente. Não falo nem só da Venezuela, mas mesmo os mais de 200 que morreram em operações no Pacífico e no Caribe, e sem nenhuma preocupação sequer de prova", disse. Amorim se referiu aos ataques dos EUA contra lanchas e embarcações alegando, sem provas, tratar-se de tráfico internacional de drogas.

Pelo outro lado, a oposição defendeu a posição norte-americana sobre as facções no Brasil e criticou o governo por se opor à decisão do governo Trump, como sustentou o deputado General Girão (PL-RN). "Existe um medo de que as forças especiais americanas entrem aqui no Brasil para pegar os criminosos que estão associados aos terroristas", justificou o parlamentar.

Amorim rebateu que soberania é o próprio Brasil combater o problema. "Não é chamar ou permitir que venha um russo, americano ou um chinês fazer isso", respondeu. Amorim ainda lembrou que a designação das facções como terroristas pode trazer prejuízos econômicos para o país, e que é "total" o desejo do governo de combater o crime organizado.

"Agora, nós não queremos de maneira alguma subordinar a nossa soberania à presença de outros países. Nem da China, nem dos EUA, nem da Rússia, nem de nenhum deles. Isso aqui é uma questão brasileira", pontuou.

## Perguntas Frequentes

### Por que oposição e Amorim divergem sobre os atritos entre Brasil e EUA?

A oposição responsabiliza o governo brasileiro pelas tensões, citando o Brics e o bloqueio de contas de empresas americanas. Amorim argumenta que as ações dos EUA têm motivação política e que o Brasil está aberto a negociar com qualquer governo.

### Qual é a posição do governo brasileiro sobre a classificação de facções como terroristas?

O governo brasileiro é contra a designação, pois teme que ela possa ser usada como pretexto para intervenções externas, inclusive militares. Amorim defende que o combate ao crime organizado é uma questão brasileira.

### O que motivou o cancelamento do visto da embaixadora do Brasil em Washington?

A demora do Brasil em conceder visto diplomático ao indicado pelos EUA para embaixador no Brasil, Daniel Pérez, levou os EUA a cancelar o visto de Maria Luiza Viotti. O governo brasileiro decidiu não conceder vistos a representantes estrangeiros até as eleições de outubro.

### O que é o Brics e qual o papel do grupo nos atritos?

O Brics é um grupo político e econômico de grandes países emergentes, como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A oposição critica a "conversão" do grupo em uma linha anti-ocidental, enquanto os membros negam essa caracterização.

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