Ciência ainda não foi lembrada na campanha eleitoral, diz SBPC
Enquanto escândalos e disputas pessoais dominam a campanha, a SBPC afirma que a ciência ainda não foi lembrada no debate eleitoral. A presidenta Francilene Garcia fala em falsa dicotomia e aponta lacuna de propostas.
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) afirma que a ciência ainda não foi lembrada na campanha eleitoral. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, a presidenta da entidade, Francilene Garcia, disse que os recentes escândalos e as disputas pessoais aprofundaram o esvaziamento de temas estratégicos para o país.
Checamos o que a entidade efetivamente declarou e o que ainda não dá para afirmar com os dados disponíveis.
O que a SBPC afirma sobre a campanha
Francilene Garcia está à frente da SBPC desde 2025. Doutora em engenharia elétrica, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), ela sustenta que eleitores e candidatos foram empurrados para uma falsa dicotomia: a ideia de que seria preciso escolher entre passar as instituições a limpo ou planejar o futuro do país.
"O país acaba sendo obrigado a escolher entre discutir a integridade das instituições ou o projeto de desenvolvimento, quando as duas coisas fazem parte de uma mesma agenda", defendeu na conversa.
Segundo ela, a agenda eleitoral está ocupada por temas que a sociedade não escolheu. Na avaliação da presidenta, há uma lacuna imensa em relação aos assuntos que realmente importam, e a ciência depende de regras estáveis, orçamento previsível e atenção, inclusive diante da possibilidade de novas crises pandêmicas.
Observatório das Eleições e engajamento das candidaturas
Para tentar pautar o debate, a SBPC lançou o Observatório das Eleições, com mais de uma centena de propostas de políticas públicas. O levantamento da entidade registra pouco mais de uma centena de candidaturas engajadas. Dentre elas, uma única de âmbito federal e nenhuma de âmbito estadual: nenhum candidato a governador se comprometeu com as propostas.
Alguns candidatos a deputado federal e ao Senado vinham aderindo, mas, segundo Francilene, o movimento perdeu velocidade nos últimos dias. A entidade também tornou pública, na semana anterior à entrevista, uma nota em conjunto com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e outras entidades científicas.
Temas que ficaram fora do debate
A presidenta lista itens que, na visão da SBPC, deveriam estar no centro da disputa e ainda não estão:
- Mudanças climáticas e seus impactos para as cidades e para a agroindústria
- Risco de novas crises sanitárias e a preparação do Sistema Único de Saúde (SUS)
- Transformação digital e os prováveis impactos da inteligência artificial
- Aproveitamento das terras raras e dos minerais críticos
- Envelhecimento populacional e transição energética
- Financiamento da ciência e regras estáveis para o setor
O que ainda não dá para afirmar: não há, na fala da presidenta, atribuição de responsabilidade a qualquer candidato, partido ou órgão específico pelo esvaziamento do debate. A SBPC também afirma que não cabe à entidade fazer julgamento prévio de processos investigativos em andamento, e defende o cumprimento do rito processual e do direito à defesa previstos na Constituição Federal.
Em entrevista à Agência Brasil, Francilene observou que a ciência historicamente fica à margem do debate eleitoral, com alguma mudança em 2020, durante a crise sanitária, e em 2024, com as enchentes no Rio Grande do Sul, as queimadas no Centro-Oeste e a seca no Norte e Nordeste. histórico do financiamento da ciência no Brasil